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quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Digerindo

Em resumo, o que consigo afirmar é solamente a vida. Nem um amor pérfido a mais. Nem um pecado inconstante. O que o eu afirma é só essa linha que ele faz, com a matéria da carne, entranhas revoltosas e incomodadas, essa linha que se desfaz nos confins do tempo, nas imemoriosas sombras das próprias carnes que se devoram precariamente, em busca de uma vida um pouquinho mais extasiante. Nem as saborosas lágrimas. Nem o pavor do vento. É a vida que me leva, despeito de eu sempre tentar seduzi-la. Batalha ingrata da minha melhor amante: eu tento afirmar mais do que existe, quero fazer acontecer, e ela me replica dando somente a si mesma, porque nada mais há para dar. O eu, presunçoso, acha pouco aquela que se dá inteira, e vive a sonhar, com mais do que tudo... Meu espírito tem grandes olhos sôfregos que gritam 'mais!' enquanto inventam a realidade. Vida! Eu te mereço mais quando estás triste do que tu me mereces quando eu estou alegre, tu mereces mais do que eu tenho pra lhe dar. Até a tristeza...! Vou tentar ser mais agradável com aqueles que vestem teu precioso manto. Toda a vontade excedente, tudo aquilo que quero para além do imediatamente possível, vêm para mim em fulgurantes sonhos. Mas eu sou o devir, e eu convido a vida para dançar.

Visto o saldo, cabe agora uma nova temática, um novo modo. Embora melhor seria se visse sempre o que consigo afirmar, o mais premente agora é circular de outro modo, mais inteligência, mais beleza, mais humor, mais concisão, mais tato, contato. As coisas vão mudando assim, aos saltos e entrelaçadas, só estou fazendo a enunciação disso. O bobo vai tomando todas as partes de mim, e as grandes demandas do eu vão esmorecendo, enquanto nascem as conquistas das demandas dos outros, que passarão a ser subjugadas democraticamente, e postas sob nova perspectiva, nova aparência, até mesmo novo conteúdo. Não é preciso que um eu passe através de um grande outro para então se tornar um grande eu? A ética será tanto maior quanto mais noções comuns houverem.

2 comentários:

AnaLua disse...

Ah, a vida, essa melhor amante que se dá inteira... Dá de rir aos infelizes, dá choques de realidades nos "felizes". Entendo teu desprezo... Só desprezando-a, teu eu atravessa o outro eu, até chegar ao super homem!! Gostei muitíssimo do teu texto.

AnaLua disse...

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