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sábado, 22 de julho de 2017

A arte mais fácil



A arte de perder não é difícil de aprender:

Tantas são as coisas feitas para serem perdidas

Que perdê-las não é nenhum desatre.



Perca algo hoje. Perca algo todo o dia.

Aceite o não saber das chaves e o gasto dos escassos minutos:

A arte de perder não é difícil de aprender.



Então pratique perder mais, perder mais rápido:

Lugares, e nomes e onde é que querias ir.

Nada disso lhe será desastre.



Eu perdi o relógio de minha mãe.

E olhe! Minha última, ou quase-última

Amada casa foi-se. Não é difícil!



Perdi duas amáveis cidades.

E mundos, reinos inteiros!

Senti sua falta, mas quedo intacto.



Até mesmo perder você, o que mais amo...

Não devo mentir!

Muito embora tudo o que se perca

Uma catástrofe nos pareça -

É muito evidente,

Nada é mais fácil do que a arte de perder!







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Original Poem by: Bishop, Elizabeth. The Complete Poems: 1927–1979 (Farrar, Straus, and Giroux, 1983)

Tradução por: Franco, Guilherme Henz.

sexta-feira, 28 de fevereiro de 2014

Capitalizar a revolução humanista



Viver, amigo, é ser soldado1


2


3



A educação é uma construção horizontal, vertical, ética, lógica e empírica. A partir desta concepção, é melhor ser honesto do que genial. É melhor ser simples e inteligível do que ser complexo e revolucionário.

O simples fala a todos e pode, portanto, mudar o mundo. O complexo não dialoga com ninguém.

É o pragmatismo que nos diz: não há revolução sem metas. Isso implica, no mínimo, um prazo, um objetivo, dois planos, inúmeras preparações e, o principal, a execução antes da aurora.

Até quando você tem para terminar o que já deveria ter começado?

E quando, finalmente,
nosso inimigo chegar
- e ele nao está em toda parte? -,
Seremos tão rápidos
Que estivemos lá antes.


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1Epígrafe por Sêneca, Lúcio Anneo (2012). Aprendendo a Viver. Tradução de Lúcia Sá Rebello. L&PM. P. 98. Citação adaptada.

2Imagem por Lovering, Tom, captando escultura de Cochrane, Marco - Truth is Beauty.

3Música por Gabriel, O Pensador (2001). Até Quando? Sony: Seja Você Mesmo (mas não Seja sempre o Mesmo). Track Number 2.



terça-feira, 30 de julho de 2013

Andar para frente é deixar para trás

1
"guard against all fulness"
2

3

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To walk forward is to leave behind

1 Quote by: Laozi - The Tao Te King. Translated by James Legge.
2 Music by: Os Paralamas do Sucesso (1999) - "Tendo a Lua". EMI Music: Acústico MTV. Track Number 13.
3 Image by: Wandering Soul Eddie - Ship Wreck Black Nab

segunda-feira, 29 de dezembro de 2008

Laços de Família

"A melhor definição do amor não vale um beijo de moça namorada; e, se bem me lembro, um filósofo antigo demonstrou o movimento andando" Uma das habituais machadadas, em seu 'Espelho: fundamental é a segunda alma, construída a partir dos reconhecimentos. Reconhecer é onirrevelar o valor. É, portanto, fazer dele uma experimentação.

*

Wes Anderson's Darjeeling Limited and Phil Morrison's Junebug.

Mas não é preciso ir tão longe. Toda a pessoalidade é feita por nós.
Então basta amar o desconhecido? Talvez seja mais pungente amar o ignorado.

Não é engraçado que um e outro briguem e discutam para julgar de que outro foi a irritação que começou a me irritar? E que se batalhe pela última negação, mesmo que ela seja 'sim, senhora' (não estamos no ponto de confundir afirmações com sins, não é mesmo? A ironia é clara, no tom de voz frustrado de quem diz reconhecer no outro uma senhoria - a mesma voz que proclama, ressentido: estou amando! querendo mostrar, com isso, que está à mando, e que não está sendo amado, que não passa de um... ignorado).

Não é lindo quando estes silêncios dizem tudo? Nós, os últimos dos ressentidos, sentamos lado a lado, negociando dores invisíveis, caladas e pouco disfarçadas, porque o Natal não nos trouxe outras máscaras, que não as velhas conhecidas, as familiares. Como ser um estupendo ator para um público íntimo? Adivinham todos os teus trejeitos, metade por serem os deles também.

Muitos de nós fazem o extremo esforço de esquecer alguma coisa. Só podemos realmente esquecer de alguma coisa se ela esteve em nossa memória (por isso pouco se diz que esquecemos do que imediatamente vemos ou ouvimos, quando é o caso, ignoramos; ou que esqueçamos aquilo a que nossa atenção se presta, quando é o caso, dizemos distrair; o que se perde não é a percepção sensória nem a capacidade atencional, que são por si próprias fugazes e mutáveis em relação a seus objetos, mas a percepção mnêmica, a percepção de uma impressão que deveria estar gravada em algum lugar, só não sabemos
qual - os esquecimentos são feitos através de rupturas ou enfraquecimentos dos vínculos neuronais), isto é, conceitualmente, só esquecemos de algo
que nos foi familiar. De algo passado e importante o suficiente, algo que se soube.

Inocentes, talvez ainda haja. Aqueles que não se sentem amados e não desejam o ser.

Humilhar com ternura é o jogo dos senhores. Dos que almejam possuir, ganhar. É um tipo de processo educacional. Fazem do orgulho, aquele animal selvagem, um incompetente caçador. Mendiga, então, as migalhas dos olhares, das palavras, come sofregamente na mão, e a lambe. Mas os que renunciaram ao orgulho ou os que nunca o conheceram não são domesticados. Lambem a mão por selvageria ou amor puro.
Lancinante.



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* The Cranberries - Ode to my family

segunda-feira, 23 de julho de 2007

É quase o caso de afogar em fogo

Sou tão íntimo como nem tuas entranhas.
Você é o mundo pelo qual perambulo, inesgotável labirinto.
Poderia dizer que nunca lembro de ti.
Seria tão exato quanto dizer que nunca te esqueço.

Antes de ti, havia em mim uma solidão enorme.
Você deu fim a ela dizendo: dorme.
Quando nos despedimos, ela voltou, maior e com mais fome.
E a cada vez que te vejo novamente, ela não some,
Mas aumenta porque não sabemos ser amantes.
Quanto mais perto estamos, mais palpável é nos sentir distantes.

A solução para mim é encontrar alguém com uma solidão semelhante,
Que inclusive contenha, como eu, uma solidão de si, solidão dançante,
Que se autoabandone e se traia comigo, periodicamente.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Cômodos e Incômodos

Havia uma antesala do seu coração
Que você guardava
Para as visitas mais queridas
E quase incômodas.

Mas eu não te incomodo mais.
Só minha ausência agora

Palpita ainda em teu peito,
Teimosa,
Sussurando, inaudível,
O próprio vazio daquilo
Que nunca fora preenchido.

Do átrio ao porão
Do esquecimento
Apenas um passo.

Do ventrículo ao átrio,
Apenas um passo,
Que percorre o corpo inteiro.

Você me esqueceu
Como se eu
Fosse pranto -
Mas sou sangue.

Eu ainda estou nas ruas
Para as quais teu coração,
Oco e involuntário, me expulsa.

Eu ainda sou a chuva,
Mas a chave da tua ternura
Está no cabo de um guardachuva.


Desenho de Kurt Halsey