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segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Princípios de Economia (outro título pouco satisfatório para outro texto pouco satisfatório)

E do porto nos partimos,
Deixando o aceno à mão esquerda -
Que a direita
Não tem certeza doutra,
Mas suspeita*.

Somos homens de mar -
Ou de deserto.
Unusual uso da água -
Para arder de fogo.

Quem saberia que
Economizar a existência
Seria exatamente torná-la vida?

Sim, então muitos. Mas da ética servindo à economia, antes o inverso. Se existimos pelo desejo do prazer, é outro algo que existe em nós; há de se achar o prazer do desejo, misturar fins em meios, corrompê-los, fazer entender que o afã do desejo não é ter um fim, mas principiar**. É assim também que a lógica deriva da ética. É tempo de entender o que é economia.
Economizar não é tornar a existência menor. Aristóteles talvez diria que a areté estaria entre o perdularismo e a avareza, entre a riqueza e a pobreza. Economizar é antes a gestão da quantidade, a frugalidade por excelência. A questão não é evitar o muito, mas saber usar o pouco, saber usar o pouco para chegar ao muito. Que o fim seja o meio não equivale ao meio ser o fim (assim como não se diz que se todos os homens são mortais, que todos os mortais sejam homens***: a igualidade e a identidade são erros de interpretação matemática: leia-se oito resolve, soluciona, resume - palavras químicas que se referem a procedimentos - cinco e três - - - Um é o primeiro número, assim como deus é o primeiro conceito; todos números derivam de um, descobrimos outros deuses, mas então o infinito é um, um que se desdobra; e se então um é o número mais solitário, nem por isso deixa de ser o mais completo, assim como se deus é o primeiro conceito, nem por isso está acabado, creio até que é o que mais está sendo pensado, para entender isso, teríamos que entender o que é deus para um sujeito, e deus vai ser sempre um trocadilo se não começa por um eu – que vocês não me entendam a esta altura não é um problema da fundamentação teórica que requeriram, muito menos da prática...), portanto, o meio é menos o equilíbrio do que o uso dos extremos – entendemos o meio como a condição. Riqueza, bem entendido, então será a abundância dos meios, das condições. Há condição suficiente: a vida se dá quando as condições suficientes estão dadas, e o que entendemos como suficiência tem para nosso corpo, nossa mente infantis, uma tradução: satisfação. Vamos do necessário ao desejável, mas é o desejado que define o necessário, que o condiciona, poderíamos dizer. O fim é claro: é sempre muito, é tanto muito que por isso não há fim último, e o fim é ele mesmo infinito.
Entendamos o que é frugalidade: não somente usar o pouco para fazer o muito, mas usar o muito para fazer o muito, com um porém: a frugalidade é generosa para além de si.
Estamos sempre entre dois amores (princípio do meio): os que tivemos e os que não temos.
O problema está longe de ser concordar com a veracidade de uma afirmação, ou que ela seja necessariamente verdadeira, diante de certos axiomas. Está em concordar com os axiomas! Ou melhor, a solução está aí! Mas concordar com os axiomas não significa necessariamente que os axiomas não sejam ambíguos (que oito possa ser a soma de cinco e três em nada impede que também seja a soma de dois e seis)...
A felicidade é o bem-estar consecutório, em suas duas acepções simultaneadas. A sabedoria é só mais um meio. O poder serve ao bem e ao mal, mas o mal não é nada. A felicidade é o bem mais primordial, isto é, principal; e ele é, na medida do razoável, autosuficiente.
E enquanto vejo a terra, existe algo que diz que todos os governos são cleptocracias. Timoneiros, antes de franzerem os cenhos, lembrem-se que tendes às mãos também governos...
Já aprendemos a nos satisfazer com pouco? Ou escutamos o desejo com orelhas grandes, almejando o fim por vezes antes do que os próprios meios?
Já aprendemos que nos satisfazer com pouco não precisa implicar em querer pouco?
Se você é um leitor com bom gosto, talvez tenha se enfarado com esse papinho de fins e meios (é possível ser um administrador sem a chatice de um administrador, não é mesmo? Por outro lado, os filósofos se autodestroem por falta de pragmatismo ou por não saberem cantar - às vezes enceno muito literalmente, tão literalmente um gracejo, como se o próprio teatro coubesse na literatura - em qualquer caso, estamos enterrando os filósofos aos poucos - para ter portos, ou navegando sobre eles - para ir mais além), terá sido porque entendeste que, assim como dinheiro faz dinheiro, amor faz amor? Ou seja, não precisamos pensar em termos de fins e meios, porque as próprias coisas que tornamos vivas se reproduzem, e seria muito frio e calculista pagar dinheiro com amor, ou amor com dinheiro - não preferimos ser quentes e letristas, como diria o humorista?

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* Adaptado de Luís de Camões, Os Lusíadas.
** "I think the finish line's a good place we could start": Snow Patrol, Eyes Open.
*** eu sei, eu sei, mas é uma questão linguística... como tomar o predicativo/objeto pelo seu sujeito? Ou, para usar um exemplo bíblico, como tomar antes o vinho bom seria o mesmo que tomar antes o ruim (ou como equivaleríamos começar pelo fim a terminar pelo começo?)? Ademais, já que estamos em análises sintáticas, caiba explicitar a validade de algumas afirmações: apostos seguidos de sujeitos ocultos deixam vírgulas em lugares inusitados.

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