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sábado, 28 de junho de 2008

Vem de Janus, vem de antigamente (as palavras serão luz quando decifrarmos a lógica)


Textos orgânicos apodrecem. Tomem este, à guisa de exemplo, em bom estado de putrefação:
O que eu estava dizendo é que pouco saberemos amar se tivermos o que esconder, se tivermos o que guardar. A humanidade quer ir por terra, seguro caminho. Depôs os tempos áureos em que descobriu o mundo. Onde uns embarcavam no enjôo para enfrentar monstros inimagináveis e o próprio fim do mundo, e outros viviam mais ou menos gentilmente, cultuando a chuva e vendo deuses pela terra. Não era um tempo de ingenuidade: era o tempo em que a perdíamos. Era o deslinde e o desbunde da ciência, da filosofia, das artes. Que nos sobra hoje? Queremos trabalhar! Perdemos a ingenuidade mas não deixamos de ser tolos.
Havíamos chegado à última fronteira da razão. Mas não havíamos ainda entendido de todo o racionalismo. Só bastava então uma mísera ação. Mas como ainda não havíamos sido românticos o suficiente, não ultrapassamos a fronteira: apaixonamo-nos pelo conhecimento. Hoje não precisamos mais fantasiar, assistimos às nossas fantasias na tela de cinema, num aparelho televisivo ou num monitor. No clímax da crise da representação. Claro, enquanto formos apaixonados, sempre estaremos em crise. E sempre desejaremos o clímax. Põe a mão na testa e bebe mais que o Bukowski. Ou Jim. Ou qualquer ídolo drogado. Não falo mal dos drogados, tenho uma noção em comum com eles, eu também quero mudar o mundo e a realidade; além do quê, às vezes me visto dum: como então falaria e faria ouvidos aos jovens noctívagos senão com uma bebedeira? A juventude, para se opor aos sisudos adultos, cheios de trabalhos até mesmo inúteis, faz a antítese: sexo e diversão. Não deixam de ser menos alienados 'que os que trabalham o dia inteiro e então assistem telejornal com telenovela, se divertindo a noite inteira e fingindo que estudam. Todos sustentamos a máquina, seja por nós mesmos, seja através daqueles que nos sustentam, seja com prazer, seja com cansaço, com a droga que nos exaure ou com a que nos alivia. Somos dialéticas sem sínteses.
A melhor diferença entre um apaixonado e um amante é exatamente esta: o amante, por não estar comprometido através da exclusão, é tantas vezes mais apaixonado que o outro, que será, efetivamente, um grande amante, um apaixonado por tudo, se entender bem o que significa amar.
Sou claro? Vês através de mim? Porque não são intrinsecamente diferentes, a paixão e o amor são comumente confundidos. O grande desafio do conhecimento é distingüir, com a sutileza que a cuidadosa lógica implica, aqueles que são de semelhança tal que até aparentam ser o mesmo.
"Alguns homens anseiam pela revolução, mas quando você se revolta e constitui seu novo governo você descobre que o seu novo governo é ainda o velho papai de sempre, tendo apenas colocado uma nova máscara de papelão (...) o que esses malditos revolucionários precisam aprender (...) é que a coisa precisa vir de dentro pra fora. Não se pode dar a um homem um novo governo como se fosse um novo chapéu e esperar um homem diferente dentro desse chapéu": Charles Bukowski, em Notas de um velho safado.
O que é que é vem mais de dentro para fora, do que a ação, o conhecimento e o amor? E o individualismo é a mais verdadeira das democracias, abracemo-lo com todos os braços que tivermos. Porque é através do abraço que se entende o todo. Então nem seremos castos especifistas nem cabais absolutistas (e entenderemos, por fim, que, a despeito de menos convir para alguém ser um apaixonado por somente uma área de conhecimento, para conhecer mais convém se apaixonar), mas senhores do meio, amplos conhecedores e ainda apaixonados pelo desconhecido. O individualismo, sendo princípio, também será um fim (já entendemos o eterno retorno?).
Para que te quero? Somos já crianças? Sabemos brincar de paixão? Até hoje, a graça esteve em acreditar nas próprias aparências que fabricamos (como quando com a luz do fogo projetamos as sombras das nossas mãos nas paredes das cavernas fingindo animais, ou quando adivinhamos as formas das nuvens, ou com vodu, ou com outras superstições, religiosas ou não, embora pareça que todas as superstições são religiosas), mas desde que o primeiro de nós soube duvidar do próprio desejo, e então fingi-lo para, em vez de crer e adorá-lo (e fingir sem saber que o fazemos), rir sobre ele, mostrando-se superior, determinante em vez de determinado, pudemos nos despir das depreciações (por mais que ainda achemos ser irônico - quando alguém ri sobre nós é porque nos deprecia - vaidade que não deseja nos deixar ser causa ou inspiração para alguém alegrar-se), e possuir o poder de nossa alegria em nossas próprias mãos. E bocas. E olhos. E ouvidos, é claro. Não somos, os atores, os cientistas da arte de interpretar? Nesse sentido, ser chamado de mau ator pode ser um elogio... Para quê quereríamos que a aparência tomasse o aspecto de verdadeiro, isto é, para que quereríamos que não transparecesse nosso fingimento? Se a verdade perdeu para a fé, e ainda há espaço para dúvidas, e ainda esses são os motivos da nossa mais imensa alegria... Preferimos não mais ser religiosos ou cientistas, se um ou outro significarem ter dogmas ou certezas - ter a luminosa sapiência de que somos capazes de inventar e engendrar o próprio afeto!: então o cômico, de rir do que o destino reservara, passou a ser rir daquilo que notamos ser fingimento mal-disfarçado (escracho). Sofre aquele que não sabe do engano, quem o sabe, dele o ri. Não nos vestimos como o vulgo? Comédia! Porém: será ainda possível ser escrachado com elegância? Seriam esses caminhos confundidos que proponho paradoxos? Bem, eu responderia a isso, se a tanto me financiassem. Uma vez me perguntaram: e como pode uma afirmação começar com se? Não é engraçado? Somos generosos à medida em que podemos (isto é, à medida em que amamos, já que é o amar que aumenta nossa própria potência - amar a deus sobre todas as coisas, mas tal conselho não se dirige ao eu? Sendo então o eu o princípio, também será um fim)... Seria preciso um tipo muito especial de pirata para dar o que não se tem... E a despeito destes mares nunca dantes navegados, não estamos distante de encontrá-los...
Assim estranhamente cobramos do marginalizado: mas só se ele fosse muito bobo para respeitar quem não o respeita. Sendo a nossa riqueza feita à custa da pobreza dele, por que não conviria a ele achar que nós somos seus inimigos, e que então antes ficasse ele rico e nós ou outros pobres? Dito de maneira mais clara (temos mais consciência da inveja do que da ambição, por motivos histórico-educacionais): por que se alegraria (desejaria que fôssemos ricos) da nossa alegria, se a nossa alegria implica a sua tristeza? No entanto, encontramos tão belos seres, como cachorros cujo olhar encolhido olha com a humildade de quem espera uma pancada.
Mas nada disso é importante, não é mesmo? A indiferença nos protege. Somos apolíticos. Tudo o que precisamos saber sobre ética é não comer os amigos, não foder com ninguém se a namorada estiver presente, e não ser pego se mentir. Arte é aquilo me mantém um zumbi. E, finalmente, podemos nos alegrar com a tv ou enchendo a cara e catando um corpo num lugar escuro com música alta de gosto duvidoso. O resto é o lixo, que nem pergunto aonde vai. Ai, Estamira, ai.

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