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quinta-feira, 19 de outubro de 2017

Sobre Sonhos e Lutas



O caso não parece ser

Que nunca realmente sabemos aonde estamos indo

Até já termos ido?



Venha comigo

Eu não pedi por mãos intactas



"Eles pavimentam o paraíso

E abrem vaga de estacionamento



Não te parece que

não sabemos o que temos

Até não termos mais?



Eles cortam todas as árvores

Para fazer um museu das árvores"1

E te cobram pela natureza morta



Onde você vai deixar seus sonhos?

Por que você vai abandoná-los agora?



Eu prefiro os fortes aos bonitos

Por que você está escondendo seus sonhos?



Venha comigo,

Eu não espero pessoas intactas

Prefiro as que lutam por seus sonhos

E se despedaçam no caminho



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1 Music by: Mitchell, Joni (1970). Big Yellow Taxi. Ladies of the Canyon. Track 10.



sábado, 22 de julho de 2017

A arte mais fácil



A arte de perder não é difícil de aprender:

Tantas são as coisas feitas para serem perdidas

Que perdê-las não é nenhum desatre.



Perca algo hoje. Perca algo todo o dia.

Aceite o não saber das chaves e o gasto dos escassos minutos:

A arte de perder não é difícil de aprender.



Então pratique perder mais, perder mais rápido:

Lugares, e nomes e onde é que querias ir.

Nada disso lhe será desastre.



Eu perdi o relógio de minha mãe.

E olhe! Minha última, ou quase-última

Amada casa foi-se. Não é difícil!



Perdi duas amáveis cidades.

E mundos, reinos inteiros!

Senti sua falta, mas quedo intacto.



Até mesmo perder você, o que mais amo...

Não devo mentir!

Muito embora tudo o que se perca

Uma catástrofe nos pareça -

É muito evidente,

Nada é mais fácil do que a arte de perder!







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Original Poem by: Bishop, Elizabeth. The Complete Poems: 1927–1979 (Farrar, Straus, and Giroux, 1983)

Tradução por: Franco, Guilherme Henz.

sexta-feira, 27 de fevereiro de 2015

Enquanto caminhamos em meio à morte





A pescadora de intuições me disse



Uma vez que você diz

Algo a alguém

Aquilo se torna deles.



E eu quero dizer

Tudo de bom

Para todo o mundo,

Sempre.1



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Fotografia por Fernanda Gervasoni.

1 Variação do tema de: Mathis, Lora (2015):



sábado, 3 de maio de 2008

Da umidez do conhecimento ou
Minha vida em sete linhas

Através das lágrimas
Que em ti causei,
Aprendi o que de ruim
Havia em mim;
E mudei.
Mas nunca deixei de questionar:
Por que chorar?

segunda-feira, 23 de julho de 2007

É quase o caso de afogar em fogo

Sou tão íntimo como nem tuas entranhas.
Você é o mundo pelo qual perambulo, inesgotável labirinto.
Poderia dizer que nunca lembro de ti.
Seria tão exato quanto dizer que nunca te esqueço.

Antes de ti, havia em mim uma solidão enorme.
Você deu fim a ela dizendo: dorme.
Quando nos despedimos, ela voltou, maior e com mais fome.
E a cada vez que te vejo novamente, ela não some,
Mas aumenta porque não sabemos ser amantes.
Quanto mais perto estamos, mais palpável é nos sentir distantes.

A solução para mim é encontrar alguém com uma solidão semelhante,
Que inclusive contenha, como eu, uma solidão de si, solidão dançante,
Que se autoabandone e se traia comigo, periodicamente.

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Morrer na tua boca

Não sou ninguém.
Mas se você precisar de alguém,
Posso até me transformar.
Como um da multidão
Me distingüir:
Só pra ver que você me vendo
Nos faz sorrir.
Abandonamos muitos lugares
Para sabermos estarmos juntos,
Abandonamos muitos pares
Para o encontro no parque,
Então não soubemos o que dizer,
Nós, os sábios - os olhos respiravam,
Demasiado acordados,
Muito atentos à invisível escuridão.
O pensamento sobressaltado,
Procurando o modo de estar perto,
Procurando onde pôr as mãos.

Há um fio que de ti eu fui puxando
Que nunca acabou de vir.
As migalhas que deixei pelo caminho
Você, passarinho, tratou de engolir.
Me ofereceu uma bela, vistosa casa
Toda feita, engenhosa, de chocolate.
Veio o sol e nos derreteu.
Você me prendeu em uma gaiola
Toda dona, me alimentando para o abate.
Até que comecei a cantar -
Seus olhos doces e negros
Retribuindo que eu iria calar
Sua fome por alguns momentos.

Que graça mais sutil!
É se oferecer em alimento -
Pouco está mais vivo do que aquilo
Que faz viver, mesmo morrendo.
Depois não existe mais eu e você
Em separados compartimentos:
Eu carregarei num nó
A mordida que você me deu;
E farei um nó no corpo teu
Com o pedaço que de mim tirou.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Cômodos e Incômodos

Havia uma antesala do seu coração
Que você guardava
Para as visitas mais queridas
E quase incômodas.

Mas eu não te incomodo mais.
Só minha ausência agora

Palpita ainda em teu peito,
Teimosa,
Sussurando, inaudível,
O próprio vazio daquilo
Que nunca fora preenchido.

Do átrio ao porão
Do esquecimento
Apenas um passo.

Do ventrículo ao átrio,
Apenas um passo,
Que percorre o corpo inteiro.

Você me esqueceu
Como se eu
Fosse pranto -
Mas sou sangue.

Eu ainda estou nas ruas
Para as quais teu coração,
Oco e involuntário, me expulsa.

Eu ainda sou a chuva,
Mas a chave da tua ternura
Está no cabo de um guardachuva.


Desenho de Kurt Halsey

segunda-feira, 14 de maio de 2007

"Te espero para ver se você vem, não te troco nesta vida por ninguém" Tim Maia

eu fico longe
que é pra ver se você vem.

pego no seu pé
porque na mão não posso.

nosso desentendimento nos salva,
diz minha velha consciência.

como você não entende
que eu não posso te falar
o que você não quer ouvir?

é como se fosse simples
você só ouve o que quer
então se você não ouve
o que eu quero dizer
eu não tenho o que dizer.

você diz escolhe a mesa
mas depois não quer a mesa que escolhi.

é como se fosse simples
você não quer ouvir o que eu quero dizer
e eu não quero dizer o que você quer ouvir

e, no entanto, a gente pensa que se ama.
o que é o amor mesmo?

sábado, 5 de maio de 2007

070424

Estou parindo alguém de mim. Não é que doa ter que mudar, criar novos hábitos, estar inseguro; dói é ser ainda alguém que não se encaixa mais no mundo. O que dói é este eu que morre enquanto pare, e que resiste à morte, não quer ir. Às vezes penso que eu mesmo queria completude, permanência. Se nós dois soubéssemos ser o mundo, não precisaríamos nos despedir. Às vezes eu nem mais sei o que é o ideal, só sei que estranho o real, estranho o amor dos outros, estranho o amor meu. Não reconheço nada disso, nem mundo, nem amigos, nem o amor, companheiro tão íntimo e de longa data, não reconheço a mim próprio. Achei este pensamento em redor de minhas confusões, e ele parece muito apropriado: se faltam meios, é porque não há fins. De novo eu pergunto pelo meu fim; às vezes nem minha ambigüidade parece capaz de me ajudar. É que ainda não sou ambíguo o suficiente. Estou muito acostumado a viver à beira do máximo. Pelo menos há agora ainda um máximo, embora não seja um máximo de conforto, de alegria ou de prazer. Mas eu sei que sei afirmar cada bobagem e cada coisa terrível, e, enquanto eu tiver esta crença travestida de saber eu vou tentar. Morro ainda jovem, para poder nascer de novo, e ser mais jovem ainda. Morro para não contar nada além de minha liberdade. Quero amar como nós somos. Se você souber ainda sorrir para mim...

Como a liberdade não vai ser o melhor?
É isso, para não ver quanto sou livre
Eu tive que me ater ao dado;
mas há o jogo. Se eu quero te machucar?
Se assim podemos ser felizes?

Me machuca que eu serei ainda feliz.
Nós próprios somos o mal e o remédio.

Há um detalhe perdido num instante
Que faz toda a vida valer a pena.

É isso, e você os tem.
Não são meus, mas você os acha.
Quero que não sejam meus.
Na verdade, eu quero não ser perfeito.
Dou-te a tua liberdade.

Se não vivo o máximo,
é ocasião de ser o máximo.
Abro bem meus olhos,
aprumo minha coluna,
Estou pronto para todos os desejos
Os seus e os meus.