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quinta-feira, 28 de janeiro de 2016

Rumo ao nada, com tudo como caminho





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1 Image by: Wallyir (2010). Com texto e montagem de Guilherme Henz Franco (2016).

2 Music by: Cartola (1978). Preciso me encontrar. Letra de Candeia (1976).



quarta-feira, 14 de novembro de 2007

Política (um título pouco satisfatório para um texto pouco satisfatório)

Durantes estas duas semanas, a proposta vai ser quase simplesmente fazer uma viagem (vai ser uma viagem com uma pequena introdução). O poste está dedicado a Sandro do Nascimento, outro incompreendido artista contemporâneo. O agradecimento é ao Daniel Dutra e à Talita Tibola, que hoje em dia são as pessoas que mais me dão o que pensar.

Assim como um artista sente no íntimo a irrevogável conveniência de mudar de estilo, também sente o vivente (até um simples silogismo aristotélico corrobora isso). Durante muito tempo me calar foi o modo que encontrei para poder estar contigo. Mas queres também minha voz intrusa e delicada. O riso que esgarça tua carne, escarnecida. As lágrimas que te louvam, demonstrando geometricamente a diferença entre tua presença e tua ausência, teu amor e tua indiferença. Não estás pronta, não é motivo pra te jogar fora. Talvez nunca estejas, ainda assim. É muito certo que te machucar seja o meu último recurso, mais último que morrer, esta crisálida, devir-borboleta, não sei dizer melhor 'que dizes. No seu limite e no meu limite é que nos encontramos. E se nossa relação real é superficial porque não sabemos nos comunicar, mostrar que nos amamos, para além dos estereotipos (os tipos estéreis, duros) - 'você não me entende', 'você me irrita', 'você não me dá atenção', quais mais temos? -, há algo de nossa relação profunda que não me permite ser sem ti. Agradeço então por existir em minhas fantasias, ser para mim mais do que o comunicável. A vida é um texto, e todo texto se presta a que, depois dele, a vida nunca mais seja a mesma. Sei que isso não acontece senão imperceptivelmente, e por isso nada me tem sido mais insosso que a distância dos corpos transformada em palavras. Não são essas as borboletas que queríamos. Ser ambíguo é meu jeito de ir além dos limites. Na verdade, não sei o teu. A impressão que tenho é constantemente essa, de que a gente não se conhece, senão pelos estereótipos. Algo acontece quando o fim é muito premente mas os meios não fluem. Eu me encho de defesas, começo a dizer, fazer o contrário do que penso mas nem por uma exata ironia.
Deixemos os prolegômenos para enfim viajar: http://radamesm.wordpress.com/2007/10/20/sou-tropa-de-elite
- comentário de um posto do Radamés Manosso, alguém que é mais do que um produtor de conteúdos educacionais para internet. Vamos conhecê-lo?

sexta-feira, 20 de julho de 2007

Morrer na tua boca

Não sou ninguém.
Mas se você precisar de alguém,
Posso até me transformar.
Como um da multidão
Me distingüir:
Só pra ver que você me vendo
Nos faz sorrir.
Abandonamos muitos lugares
Para sabermos estarmos juntos,
Abandonamos muitos pares
Para o encontro no parque,
Então não soubemos o que dizer,
Nós, os sábios - os olhos respiravam,
Demasiado acordados,
Muito atentos à invisível escuridão.
O pensamento sobressaltado,
Procurando o modo de estar perto,
Procurando onde pôr as mãos.

Há um fio que de ti eu fui puxando
Que nunca acabou de vir.
As migalhas que deixei pelo caminho
Você, passarinho, tratou de engolir.
Me ofereceu uma bela, vistosa casa
Toda feita, engenhosa, de chocolate.
Veio o sol e nos derreteu.
Você me prendeu em uma gaiola
Toda dona, me alimentando para o abate.
Até que comecei a cantar -
Seus olhos doces e negros
Retribuindo que eu iria calar
Sua fome por alguns momentos.

Que graça mais sutil!
É se oferecer em alimento -
Pouco está mais vivo do que aquilo
Que faz viver, mesmo morrendo.
Depois não existe mais eu e você
Em separados compartimentos:
Eu carregarei num nó
A mordida que você me deu;
E farei um nó no corpo teu
Com o pedaço que de mim tirou.

sexta-feira, 15 de junho de 2007

Cômodos e Incômodos

Havia uma antesala do seu coração
Que você guardava
Para as visitas mais queridas
E quase incômodas.

Mas eu não te incomodo mais.
Só minha ausência agora

Palpita ainda em teu peito,
Teimosa,
Sussurando, inaudível,
O próprio vazio daquilo
Que nunca fora preenchido.

Do átrio ao porão
Do esquecimento
Apenas um passo.

Do ventrículo ao átrio,
Apenas um passo,
Que percorre o corpo inteiro.

Você me esqueceu
Como se eu
Fosse pranto -
Mas sou sangue.

Eu ainda estou nas ruas
Para as quais teu coração,
Oco e involuntário, me expulsa.

Eu ainda sou a chuva,
Mas a chave da tua ternura
Está no cabo de um guardachuva.


Desenho de Kurt Halsey

quinta-feira, 24 de maio de 2007

"Você passa e não me olha, mas eu olho pra você. Você não me diz nada, mas eu digo pra você. Você por mim não chora, mas eu choro por você" Ben Jor

Olha uma beleza passando, como não querê-la, como não chorar? Sim, eu sempre perco, mas não penso nisso, eu penso no que ganho, eu penso nesta presença que há para mim, que presença não pode iluminar?

Como não ter esta disposição de te abraçar para sempre, mesmo que eu não vá te abraçar para sempre? Como não ver o sol chorando, fazendo das suas lágrimas a amplidão azul?

Você, você, você e você, amada, querida e desejada, e todas as outras [de você]; oh, todas as vidas com que me encanto! Como não dizer quanta falta elas me fazem?, mesmo sabendo que elas existam para mim por excesso - Só com imaginação; só com a minha boba fantasia o que eu quero se torna presente, Porque você, você, você e você e eu não temos braços, nem palavras, nem rios, nem peles, nem corpos, aparentemente; ou, se temos, não fazemos uso deles, o que, em termos de efeitos, dá quase no mesmo. Mas o que me permite vestir as fantasias é me reconhecer nos nossos olhares fugidios.

É porque nossas solidões nos desesperam, ou talvez exatamente por não nos desesperarem, que o nosso melhor encontro se queda dificultado; o nosso encontro mais calmo, mais íntimo, onde não só nossas superfícies se encontram, mas também nossas profundidades.

E eu diria tudo, mais verdadeiro, mais amoroso, mais por ti e mais por mim, um encontro mais significativo, mais intenso, porque mais encontrador e mais encontrado.

O silêncio é mais que o fim, é o começo: despir-nos de nossas macaquices, de nossos medos, para começar a poder sermos nós mesmos.

segunda-feira, 14 de maio de 2007

"Te espero para ver se você vem, não te troco nesta vida por ninguém" Tim Maia

eu fico longe
que é pra ver se você vem.

pego no seu pé
porque na mão não posso.

nosso desentendimento nos salva,
diz minha velha consciência.

como você não entende
que eu não posso te falar
o que você não quer ouvir?

é como se fosse simples
você só ouve o que quer
então se você não ouve
o que eu quero dizer
eu não tenho o que dizer.

você diz escolhe a mesa
mas depois não quer a mesa que escolhi.

é como se fosse simples
você não quer ouvir o que eu quero dizer
e eu não quero dizer o que você quer ouvir

e, no entanto, a gente pensa que se ama.
o que é o amor mesmo?