"Dark and difficult times lie ahead. Soon we must all face the choice between what is right and what is easy. Remember that you have friends"**
Sombrios e difíceis tempos quedam à frente. Em breve, nós todos devemos encarar a escolha entre o certo e o fácil. Lembra que tens amigos...
Dumbledore é sábio o suficiente para saber que não existe o errado (e também Morrisey). Escolhendo o fácil, atuaremos no sentido de tornar nossos amigos menos leais...
Além disso, aquilo que à primeira vista se mostra fácil aparece diferente nas vistas seguintes, mais profundas: uma vida com amigos menos leais é mais difícil...
Convém desconfiar do efeito mais imediato: de fato ele é o mais básico, mas é como numa partida de xadrez. É um jogo de se-então imenso: de pouco adianta tomar a rainha do amigo adversário se com isso nosso rei fica exposto a um cheque-morte (eis o x da questão). Está pré-datado. Convém antever o próximo lance, e então o próximo, e depois o próximo. Jogar lixo ao chão é mais fácil, porém, como não viveremos assim com o lixo, mais tarde ele dará mais trabalho (sim, dará até mais emprego, o que não é intrinsecamente algo bom: como vimos, dar trabalho é algo fácil, o mais importante é dar o trabalho certo, isto é, numa linguagem mais exata, dar o melhor trabalho, que geralmente é o mais útil). Sermos imediatistas é importante, porém não é aconselhável que a imediatez de alguns efeitos seja o único critério. Claro que, ao lidarmos com muitos critérios, ou seja, com muitas variáveis, nossa análise-cálculo fica mais complicada, mais difícil, mas a exatidão, valiosa a filósofos, cientistas e vulgos, cobra seu custo, que nada mais é do que o estritamente necessário.
"Serei tão breve que na verdade já terminei:"
Salvador Dalí - La persistencia de la memoria
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*The Smiths - How soon is now? in: Meat is Murder. Rough Trade, London, 1985:
eu sou o sol
eu sou o ar
de uma timidez que é criminalmente vulgar
eu sou o sol e o ar
de nada em particular
fecha tua boca
como podes dizer
que eu abordo as coisas do jeito errado?
eu sou humano e preciso ser amado
tanto quanto todos os outros corpos precisam
eu sou o filho
e o herdeiro
de uma timidez que é criminalmente vulgar
eu sou o filho e o herdeiro
de nada particular
tu calas a boca -
com que fundamento dizes
que faço as coisas do jeito errado?
eu sou humano e preciso ser amado
só como todas as outras pessoas precisam
há um clube, se gostarias de ir
podes encontrar algum corpo que realmente te ama
então tu vais, e permanece na tua
e tu sais na tua
e tu vais pra casa e choras
e desejas morrer
quando tu dizes vai acontecer "agora"
bem, quando exatamente você significa?
veja, eu já esperei muito longamente
e toda minha esperança já era
Ah, silencia a boca!
como podes dizer
que lido com as coisas do modo errado?
eu sou humano e preciso ser amado
justo como qualquer mais precisa
**Citação de J. K. Rowling, Harry Potter and the Goblet of Fire. Aquilo com cabeça, asas de águia e corpo de leão é meu, como de costume.
Os filósofos talham conceitos, os artistas, metáforas, e os bobos, equívocos.
Equívoco equivale a erro somente para lógicos muito duros, que não sabem aproveitar a simultaneidade. O bobo beneficia-se da ambigüidade do tempo.
Textos orgânicos apodrecem. Tomem este, à guisa de exemplo, em bom estado de putrefação: O que eu estava dizendo é que pouco saberemos amar se tivermos o que esconder, se tivermos o que guardar. A humanidade quer ir por terra, seguro caminho. Depôs os tempos áureos em que descobriu o mundo. Onde uns embarcavam no enjôo para enfrentar monstros inimagináveis e o próprio fim do mundo, e outros viviam mais ou menos gentilmente, cultuando a chuva e vendo deuses pela terra. Não era um tempo de ingenuidade: era o tempo em que a perdíamos. Era o deslinde e o desbunde da ciência, da filosofia, das artes. Que nos sobra hoje? Queremos trabalhar! Perdemos a ingenuidade mas não deixamos de ser tolos. Havíamos chegado à última fronteira da razão. Mas não havíamos ainda entendido de todo o racionalismo. Só bastava então uma mísera ação. Mas como ainda não havíamos sido românticos o suficiente, não ultrapassamos a fronteira: apaixonamo-nos pelo conhecimento. Hoje não precisamos mais fantasiar, assistimos às nossas fantasias na tela de cinema, num aparelho televisivo ou num monitor. No clímax da crise da representação. Claro, enquanto formos apaixonados, sempre estaremos em crise. E sempre desejaremos o clímax. Põe a mão na testa e bebe mais que o Bukowski. Ou Jim. Ou qualquer ídolo drogado. Não falo mal dos drogados, tenho uma noção em comum com eles, eu também quero mudar o mundo e a realidade; além do quê, às vezes me visto dum: como então falaria e faria ouvidos aos jovens noctívagos senão com uma bebedeira? A juventude, para se opor aos sisudos adultos, cheios de trabalhos até mesmo inúteis, faz a antítese: sexo e diversão. Não deixam de ser menos alienados 'que os que trabalham o dia inteiro e então assistem telejornal com telenovela, se divertindo a noite inteira e fingindo que estudam. Todos sustentamos a máquina, seja por nós mesmos, seja através daqueles que nos sustentam, seja com prazer, seja com cansaço, com a droga que nos exaure ou com a que nos alivia. Somos dialéticas sem sínteses. A melhor diferença entre um apaixonado e um amante é exatamente esta: o amante, por não estar comprometido através da exclusão, é tantas vezes mais apaixonado que o outro, que será, efetivamente, um grande amante, um apaixonado por tudo, se entender bem o que significa amar. Sou claro? Vês através de mim? Porque não são intrinsecamente diferentes, a paixão e o amor são comumente confundidos. O grande desafio do conhecimento é distingüir, com a sutileza que a cuidadosa lógica implica, aqueles que são de semelhança tal que até aparentam ser o mesmo. "Alguns homens anseiam pela revolução, mas quando você se revolta e constitui seu novo governo você descobre que o seu novo governo é ainda o velho papai de sempre, tendo apenas colocado uma nova máscara de papelão (...) o que esses malditos revolucionários precisam aprender (...) é que a coisa precisa vir de dentro pra fora. Não se pode dar a um homem um novo governo como se fosse um novo chapéu e esperar um homem diferente dentro desse chapéu": Charles Bukowski, em Notas de um velho safado. O que é que é vem mais de dentro para fora, do que a ação, o conhecimento e o amor? E o individualismo é a mais verdadeira das democracias, abracemo-lo com todos os braços que tivermos. Porque é através do abraço que se entende o todo. Então nem seremos castos especifistas nem cabais absolutistas (e entenderemos, por fim, que, a despeito de menos convir para alguém ser um apaixonado por somente uma área de conhecimento, para conhecer mais convém se apaixonar), mas senhores do meio, amplos conhecedores e ainda apaixonados pelo desconhecido. O individualismo, sendo princípio, também será um fim (já entendemos o eterno retorno?). Para que te quero? Somos já crianças? Sabemos brincar de paixão? Até hoje, a graça esteve em acreditar nas próprias aparências que fabricamos (como quando com a luz do fogo projetamos as sombras das nossas mãos nas paredes das cavernas fingindo animais, ou quando adivinhamos as formas das nuvens, ou com vodu, ou com outras superstições, religiosas ou não, embora pareça que todas as superstições são religiosas), mas desde que o primeiro de nós soube duvidar do próprio desejo, e então fingi-lo para, em vez de crer e adorá-lo (e fingir sem saber que o fazemos), rir sobre ele, mostrando-se superior, determinante em vez de determinado, pudemos nos despir das depreciações (por mais que ainda achemos ser irônico - quando alguém ri sobre nós é porque nos deprecia - vaidade que não deseja nos deixar ser causa ou inspiração para alguém alegrar-se), e possuir o poder de nossa alegria em nossas próprias mãos. E bocas. E olhos. E ouvidos, é claro. Não somos, os atores, os cientistas da arte de interpretar? Nesse sentido, ser chamado de mau ator pode ser um elogio... Para quê quereríamos que a aparência tomasse o aspecto de verdadeiro, isto é, para que quereríamos que não transparecesse nosso fingimento? Se a verdade perdeu para a fé, e ainda há espaço para dúvidas, e ainda esses são os motivos da nossa mais imensa alegria... Preferimos não mais ser religiosos ou cientistas, se um ou outro significarem ter dogmas ou certezas - ter a luminosa sapiência de que somos capazes de inventar e engendrar o próprio afeto!: então o cômico, de rir do que o destino reservara, passou a ser rir daquilo que notamos ser fingimento mal-disfarçado (escracho). Sofre aquele que não sabe do engano, quem o sabe, dele o ri. Não nos vestimos como o vulgo? Comédia! Porém: será ainda possível ser escrachado com elegância? Seriam esses caminhos confundidos que proponho paradoxos? Bem, eu responderia a isso, se a tanto me financiassem. Uma vez me perguntaram: e como pode uma afirmação começar com se? Não é engraçado? Somos generosos à medida em que podemos (isto é, à medida em que amamos, já que é o amar que aumenta nossa própria potência - amar a deus sobre todas as coisas, mas tal conselho não se dirige ao eu? Sendo então o eu o princípio, também será um fim)... Seria preciso um tipo muito especial de pirata para dar o que não se tem... E a despeito destes mares nunca dantes navegados, não estamos distante de encontrá-los... Assim estranhamente cobramos do marginalizado: mas só se ele fosse muito bobo para respeitar quem não o respeita. Sendo a nossa riqueza feita à custa da pobreza dele, por que não conviria a ele achar que nós somos seus inimigos, e que então antes ficasse ele rico e nós ou outros pobres? Dito de maneira mais clara (temos mais consciência da inveja do que da ambição, por motivos histórico-educacionais): por que se alegraria (desejaria que fôssemos ricos) da nossa alegria, se a nossa alegria implica a sua tristeza? No entanto, encontramos tão belos seres, como cachorros cujo olhar encolhido olha com a humildade de quem espera uma pancada. Mas nada disso é importante, não é mesmo? A indiferença nos protege. Somos apolíticos. Tudo o que precisamos saber sobre ética é não comer os amigos, não foder com ninguém se a namorada estiver presente, e não ser pego se mentir. Arte é aquilo me mantém um zumbi. E, finalmente, podemos nos alegrar com a tv ou enchendo a cara e catando um corpo num lugar escuro com música alta de gosto duvidoso. O resto é o lixo, que nem pergunto aonde vai. Ai, Estamira, ai.
Contamos com que este à vista não seja o modo de pagamento pelo qual se vende a terra. "Sobre a desigualdade social": sejamos espertos, sejamos modernos - a democracia está primeiramente no diálogo.
O caso é o exemplo típico de como os telejornais são tão pouco inteligentes, eficientes e úteis. A única utilidade que a grande amplitude na cobertura alcança é forçar as autoridades responsáveis pela investigação a serem mais minuciosos e cuidadosos, o que não deveria ser necessário, bastando simplesmente que tais autoridades fossem competentes e éticas. Então as pessoas acreditam e investem afetivamente naquela tela plana e multicolorida e nas idéias que ela causa. Alguns até saem por aí gritando "assassino!" e ficando de tocaia a fim de linchar o próximo.
O caso recebe prioridade em todos os telejornais, mesmo que não haja nenhuma informação nova a ser repassada, aliás, praticamente não há nenhuma informação nova relevante desde a primeira divulgação do ocorrido. Então o que é dito num dia é desdito no outro para no seguinte ainda ser criada uma terceira hipótese. Muito trabalho para pouco resultado.
Depois o telejornal ainda me diz que a morte da menina causou grande comoção em todo o Brasil, sendo que o grande responsável pela comoção foi o próprio telejornal, exatamente porque insiste nisso como se fosse a coisa mais importante que existe no mundo. É a santa ingenuidade de acreditar que o público quer ouvir exatamente o que se quer falar, o que não deixa de ser verdade já que o público assiste o telejornal independentemente do que veiculam nele. Assim acreditam estar informados do que ocorre no mundo, o que também é um jeito de alienar-se do que acontece em nossa aldeia e daquilo que podemos fazer para melhorá-la. Ficamos mais próximos e pessoais (isto é, nos causa mais afeto) de uma menina morta com quem nunca falamos do que com nossos próprios vizinhos.
Os católicos não perceberam, mas os meios de comunicação em massa são a besta, e a internet é o juízo final. Podemos procurar pela informação que queremos da fonte que queremos. No entanto, as pessoas não querem procurar, muito menos encontrar, elas nem querem querer (adivinha quais são duas das expressões mais buscadas nos sítios de pesquisa? Não por acaso, Isabella Nardoni e dengue). Só querem descansar do seu dia de trabalho, que é mais árduo e menos eficiente do que deveria, então se distraem com uma novelinha que já vem pronta na tv, seja ela real ou fictícia - ou ambas, como o bbb, afinal, real tudo é, inclusive qualquer jogo de aparências. É quase incrível, as pessoas se emocionam mais com ela do que com sua própria vida. É que talvez, se não o fizessem, teriam muito o que chorar.
A repercussão da morte de Isabella veio a ocupar o espaço destacado de divulgação dos casos de dengue. Temos o quê, uns noventa casos de morte? Sob este critério, que é um critério relevante, a notícia dengue seria 90 vezes mais importante que a notícia Isabella. Através da notícia da dengue, podemos perceber como é mais importante pro telejornal contabilizar mortos e feridos do que divulgar meios de evitar e diminuir mortes e ferimentos. O exemplo se torna mais claro se pensarmos em acidentes de trânsito. Na maior parte das vezes, a tv só faz propaganda contra a direção alcoolizada (freqüentemente em campanhas que são financiadas pelo governo ou pelas próprias fabricantes de bebidas alcoólicas), que é um dos grandes fatores de risco, é claro, mas acaba por negligenciar outras atitudes que podemos tomar ou mesmo o espaço para discussão do problema - os diagnósticos (isto é, os números) vêm prontos das instituições de pesquisa, porém as soluções? A tv é um meio, e será tão prenhe de questões relevantes a tratar quanto é prenhe a cabeça de quem concebe os programas transmitidos nela. Mas o que os jornalistas efetivamente sabem? Grande parte das informações que repassam eles adquirem de outras pessoas! Não sejamos tão exigentes, porque poderia ser pior: comentários sobre a vida extraprofisional de famosos. Vivemos de sensacionalismo em vez de educação, o que não deixa de ser estranho, já que a educação é tão violenta quanto uma sensação. Tampouco se trata de achar que um objeto frio, impessoal, unilateral e que mantém relações não-recíprocas seja capaz de educar. Exatamente porque o que educa é o afeto e não a informação. Só mesmo numa acepção muito especial você enquanto ia para a escola ver um desenhinho no livro de uma mitocôndria e ler sobre sua função estava sendo educado. Também os professores mantêm a prática de repassar informações em prejuízo de proporcionar experiências cognoscitivas. Ainda não aprendemos a educar e, enquanto não o fizermos, nossa sociedade travará eternamente sua luta do altruísmo em detrimento do egocentrismo - aquilo que alguns chamam, às vezes fervorosamente, de bem contra o mal.
Não obstante, o jornalismo ainda é um dos únicos campos, bem como o das relações amorosas e o comércio (especialmente o capitalista, pois há algo nele de antieconômico, ao privilegiar a posse e o uso privativo, incentivando assim a produção excessiva de bens e sua respectiva exacerbada disponibilidade, o que, em termos simples, chamamos de desuso), onde exclusividade ainda é um elogio.
Os assassinos, os flavivírus, as emissoras de tv não são más, só praticam o seu desejo de ser excludentes. Até mesmo as igrejas fazem isso!
Os tolos tomam por qualidade aquilo que é abuso de poder. Nada é mais terrível e contraproducente do que ser o único capaz de oferecer algo que todos querem ou que é bom para todos. Mas a todo momento, utilizamo-nos disso como autopropaganda. Nesse sentido, preocupamo-nos mais em apontar o fracasso dos outros - e inclusive causá-lo - do que em nos aprimorarmos naquilo que fazemos, e nos tornarmos bons por nós mesmos, isto é, além de todos os parâmetros medíocres, comparações infames, até mesmo covardes, onde somos apenas considerados bons em detrimento de outras pessoas.
Se queres saber, os jogos de poder, de desejo não me excitam mais; além do quê, eles perecem como o amor não o faz. Como me contentaria com pequenos arranhões depois de ter conhecido as garras do amor?
Fora isso, uma das únicas questões a que procuro alternativas é o fato de a educação dificilmente deixar de ser um jogo de poder, porque quando não somos educados, somos educadores, para além do princípio da razoabilidade, porque o eu tende a achar-se sempre razoável, e quando julgar que o desejo do outro é desprovido de razão, convencido estará de que ele próprio está coberto de razão.
Quantos percalços nos dão, os limites de nossa lógica apaixonada...
Se a propaganda é a alma do negócio, então venda-se.
sábado, 16 de fevereiro de 2008
O Malvados há muito tempo (anos) merece menção. André Dahmer é fabuloso ao concatenar um humor surpreendente às questões mais prementes do mundo hodierno, tais como amor, ética, política, economia, guerra. Pérolas inúmeras, dentre umas quais as mais recentes: "Casamento é um contrato entre duas pessoas que querem brigar para sempre",
, . Resolvi postá-lo aqui, embora ele já seja modestamente famoso, tanto porque merece ser mais (embora infelizmente - o itálico é para explicitar que não estou me lamentando - não vá ser eu que vá torná-lo, com minha dúzia de leitores, se muito) quanto porque ele vem ao encontro das idéias que tenho exposto, com ilustração, ilustreza, concisão, freqüência e beleza admiráveis. Até gostaria de elogiá-lo mais, mas há coisas que simplesmente nos pegam de jeito, de tal jeito que não conseguimos dizer mais do que 'é isso!'. Que fique, pois, com minha afirmação, singela, ainda que exclamativa.
Também aproveito para divulgar o ClickÁrvore - mediante um curto cadastro você pode mandar plantar uma árvore por dia, numa tentativa de tentar preservar a Mata Atlântica. Também um pequeno jeito de engendrar vida, pois, como vimos, é efetivamente difícil atingir os fins sem passar pelo meio, a menos, é claro, que realmente queiramos atingir o fim, com toda a literalidade - então basta passar por cima do meio. Ou, como diria o humorista, falando mais sério do que nunca (afinal humoristas estão constantemente realmente significando aquilo que dizem tanto quanto qualquer outro, com o acréscimo de sua graciosa desenvoltura - tanto a mentira, neste exemplo um semblante rotineiro ou mesmo irritadiço disfarçando um espírito fagueiro, quanto a verdade têm a capacidade de nos fazer rir), o meio ambiente é tão importante que deveríamos preservar todo ele!
Se o querido amigo travestido de leitor bem notaste, é oportuno falarmos finalmente do humor. Amor, como diria o galhofeiro Oswald. O amor nos salva duplamente: torna suportável ou até querido o que era insuportável ou ruim, e nos evita de deixar-se envolver levianamente com belezas de tal modo efêmeras que poderiam, no seguinte instante, ser por nós mesmos completamente ignoradas ou inclusive que poderiam enfear-se como paixão negra e amargamente arrependida. O princípio do amor é a constância, é um princípio de um extremo tão belo, tão belo num mundo heraclitiano. Pois bem, muito do que o amor deglute é feito pelos dentes escancarados e mordazes do humor faceiro. Cabe ao amado a elegância de entender que é preciso mordiscar se queremos tornar o que aparece repentinamente em nosso paladar algo digerível. Tamanho aprendiz tem que ser o amante! - para aprender a gostar daquilo que desconhece, e que lhe aparece como estranho, como insosso, como asqueroso. Nada como um terceiro excluído para tornar leves as transferências de culpas - o riso é um ruído. E a um casal bem convém uma platéia, para se aperceber de quão ridículo está sendo, traduzo a quem não tem um dicionário ou a quem tem preguiça, de aperceber quão exagerado, grotesco (isto é, da gruta, da caverna, quão grosseiro, troglodita), insignificante, mesquinho, desditoso está sendo. E só o humor para tornar palatável as más educações de cada um - ou os seus desejos de educar. O exemplo mais claro que disponho é o de Andy Kaufman, e mesmo a teoria em torno do seu tipo de humor é ainda mais luz: dizia-se que queria que as pessoas rissem do âmago, lá do gut, das entranhas, do estômago, isto é, que não tivessem a opção de sorrir, de ser simpáticas, para ele tolerar não era uma opção: se podia odiá-lo ou adorá-lo. Conseguia um ou outro submetendo o público a sandices típicas de um bobo - seu personagem mais famoso era um - consternando a platéia a irritar-se ou a tornar-se ela mesma boba, sendo assim capaz de alegrar-se com uma bobagem. Expunha o mesmo espetáculo, e o modo como um ou outro reagia dependia então simplesmente de como este espectador tinha se constituído, constituído seu humor, e de como, através da sua história, tinha reagido (a palavra reação é inteiramente adequada) a situações de pressão. É ali que se distingüe quem é quem, os altruístas dos egoístas, os masoquistas dos sádicos. Um pouco do seu desastre enquanto artista é que ele insistia em contar a mesma piada, isto é, encenava o mesmo conteúdo, embora sob diversas formas, com aspectos diferentes; seu humor, que é daqueles de criar muitos desafetos, embora também o seja de criar muitos afetos, acaba por sucumbir numa sociedade que não sabe conviver com minorias, e que acha que a maioria, mesmo que esta maioria se distingua (se o leitor já me entendeu minimamente, percebeu que na minha concepção de mundo não existem erros, mesmo que eles não estejam italizados - além do quê, o uso se pauta pela gramática tanto quanto a gramática se pauta pelo uso, e cabe singelamente a nós ensejar o {que cada um acha} melhor, seja ele o instituído ou não) da minoria por apenas uma pessoa (afinal, o próprio conceito de maioria é o da metade mais um), que esta maioria é a lei e deve ser obedecida. E um pouco do seu ostracismo público decorre de algo que era muito irritante para alguns (e creio que Andy era tão bobo que, projetivamente, confiava que a platéia, em termos de visão de mundo, iria até ele, e não precisaria ele ir até a platéia): não saber se algo é verdade ou é mentira. Mas quando se é bobo não importa que aquilo de que se ri seja verdade ou mentira, importa apenas que se ria. É um grande elogio, e demonstração suprema de força, despedir-se de alguém sem estar triste: afinal, se vamos a admirar alguém, que se faça pela sua presença antes do que pela sua ausência. Presença de espírito. Charles D'Ambrosio é pontual: o riso {a alegria} é iminentemente social, o choro {a tristeza} é privativa, privada. Adoro como as palavras, as noções se encaixam. Parece que estão fazendo sexo. Prazeres quase orgásmicos quando não orgásmicos, além de férteis. Mas talvez o mais importante acerca do humor seja entender que ele é líquido. Não adianta dar murro em ponta de faca, mas água mole em pedra dura tanto bate até que fura. O que nos leva à conclusão de que se suas mãos forem humorísticas, conseguirá o que bem quiser. Nossas mãos já são bem lépidas e já são bem bobas, é questão só do resto dos corpos também vir a ser. Afinal, corpos muito autoritários não suportariam mãos tão gentis...
E do porto nos partimos, Deixando o aceno à mão esquerda - Que a direita Não tem certeza doutra, Mas suspeita*.
Somos homens de mar - Ou de deserto. Unusual uso da água - Para arder de fogo.
Quem saberia que Economizar a existência Seria exatamente torná-la vida?
Sim, então muitos. Mas da ética servindo à economia, antes o inverso. Se existimos pelo desejo do prazer, é outro algo que existe em nós; há de se achar o prazer do desejo, misturar fins em meios, corrompê-los, fazer entender que o afã do desejo não é ter um fim, mas principiar**. É assim também que a lógica deriva da ética. É tempo de entender o que é economia. Economizar não é tornar a existência menor. Aristóteles talvez diria que a areté estaria entre o perdularismo e a avareza, entre a riqueza e a pobreza. Economizar é antes a gestão da quantidade, a frugalidade por excelência. A questão não é evitar o muito, mas saber usar o pouco, saber usar o pouco para chegar ao muito. Que o fim seja o meio não equivale ao meio ser o fim (assim como não se diz que se todos os homens são mortais, que todos os mortais sejam homens***: a igualidade e a identidade são erros de interpretação matemática: leia-se oito resolve, soluciona, resume - palavras químicas que se referem a procedimentos - cinco e três - - - Um é o primeiro número, assim como deus é o primeiro conceito; todos números derivam de um, descobrimos outros deuses, mas então o infinito é um, um que se desdobra; e se então um é o número mais solitário, nem por isso deixa de ser o mais completo, assim como se deus é o primeiro conceito, nem por isso está acabado, creio até que é o que mais está sendo pensado, para entender isso, teríamos que entender o que é deus para um sujeito, e deus vai ser sempre um trocadilo se não começa por um eu – que vocês não me entendam a esta altura não é um problema da fundamentação teórica que requeriram, muito menos da prática...), portanto, o meio é menos o equilíbrio do que o uso dos extremos – entendemos o meio como a condição. Riqueza, bem entendido, então será a abundância dos meios, das condições. Há condição suficiente: a vida se dá quando as condições suficientes estão dadas, e o que entendemos como suficiência tem para nosso corpo, nossa mente infantis, uma tradução: satisfação. Vamos do necessário ao desejável, mas é o desejado que define o necessário, que o condiciona, poderíamos dizer. O fim é claro: é sempre muito, é tanto muito que por isso não há fim último, e o fim é ele mesmo infinito. Entendamos o que é frugalidade: não somente usar o pouco para fazer o muito, mas usar o muito para fazer o muito, com um porém: a frugalidade é generosa para além de si. Estamos sempre entre dois amores (princípio do meio): os que tivemos e os que não temos. O problema está longe de ser concordar com a veracidade de uma afirmação, ou que ela seja necessariamente verdadeira, diante de certos axiomas. Está em concordar com os axiomas! Ou melhor, a solução está aí! Mas concordar com os axiomas não significa necessariamente que os axiomas não sejam ambíguos (que oito possa ser a soma de cinco e três em nada impede que também seja a soma de dois e seis)... A felicidade é o bem-estar consecutório, em suas duas acepções simultaneadas. A sabedoria é só mais um meio. O poder serve ao bem e ao mal, mas o mal não é nada. A felicidade é o bem mais primordial, isto é, principal; e ele é, na medida do razoável, autosuficiente. E enquanto vejo a terra, existe algo que diz que todos os governos são cleptocracias. Timoneiros, antes de franzerem os cenhos, lembrem-se que tendes às mãos também governos... Já aprendemos a nos satisfazer com pouco? Ou escutamos o desejo com orelhas grandes, almejando o fim por vezes antes do que os próprios meios? Já aprendemos que nos satisfazer com pouco não precisa implicar em querer pouco? Se você é um leitor com bom gosto, talvez tenha se enfarado com esse papinho de fins e meios (é possível ser um administrador sem a chatice de um administrador, não é mesmo? Por outro lado, os filósofos se autodestroem por falta de pragmatismo ou por não saberem cantar - às vezes enceno muito literalmente, tão literalmente um gracejo, como se o próprio teatro coubesse na literatura - em qualquer caso, estamos enterrando os filósofos aos poucos - para ter portos, ou navegando sobre eles - para ir mais além), terá sido porque entendeste que, assim como dinheiro faz dinheiro, amor faz amor? Ou seja, não precisamos pensar em termos de fins e meios, porque as próprias coisas que tornamos vivas se reproduzem, e seria muito frio e calculista pagar dinheiro com amor, ou amor com dinheiro - não preferimos ser quentes e letristas, como diria o humorista?
--- * Adaptado de Luís de Camões, Os Lusíadas. ** "I think the finish line's a good place we could start": Snow Patrol, Eyes Open. *** eu sei, eu sei, mas é uma questão linguística... como tomar o predicativo/objeto pelo seu sujeito? Ou, para usar um exemplo bíblico, como tomar antes o vinho bom seria o mesmo que tomar antes o ruim (ou como equivaleríamos começar pelo fim a terminar pelo começo?)? Ademais, já que estamos em análises sintáticas, caiba explicitar a validade de algumas afirmações: apostos seguidos de sujeitos ocultos deixam vírgulas em lugares inusitados.
Conceda meu último pedido e só me deixe segurá-la, Não erga seus ombros - Deite ao meu lado. Certamente posso aceitar que estamos indo a lugar nenhum, Mas uma última vez vamos lá - Deite ao meu lado. Descobri que estou destinado a vagar por aquela longa estrada, E percebi tudo sobre suas mentiras. Mas eu não sou mais sábio que o bobo que antes era. Eu só quero você mais perto, tudo bem? Baby, vamos nos aproximar hoje à noite... Diga-me como poderia, como isso poderia ser errado?**
mão firme no leme, meus companheiros! olhar úmido ao horizonte, timoratos timoneiros! não estais sentindo que quase estamos chegando ou saindo de um alegre porto?
Não me dêem indícios a pensar que só falo aos mais humanos seres que já cruzaram de Gaia o caminho. Pois que os canídeos, esses já são quase os únicos que se deitam ao nosso lado - e eles não precisam de nossas tolas palavras, nos entendem sem elas. Pouco tenho a falar aos mais nobres, que demonstraram tamanha capacidade de empatia a ponto tal de empatizar com aqueles que, tendo o poder para ser os mais inteligentes e sábios dos seres, conseguem ser os mais ignorantes deles, se analisarmos a sua perniciosidade, sabotadora de toda a vida, inclusive a própria.
Porque, antes a melhorar o melhor, prefiro melhorar o pior. É um trabalho cuja conveniência é mais premente: de que tamanho proveitoso efeito seria descobrir um cintilante sabor de um novo molho, se para além das grades daquilo que se convencionou chamar de lares, famintos amigos espreitam a nossa rica indiferença dispostos a nos fazer justiça? E crueldade menos é matar para comer (tanto menos roubar para comer), o que todos os animais fazem, do que distrair-se, alienar-se*** para deixar morrer.
É neste sentido que melhorar menos é refinar do que engrossar. Como não entendemos isso em plena era da massificação?
Fácil eu posso aceitar que estamos indo à mais estúpida morte, mas, uma vez mais, vamos tentar engendrar a vida.
------ * Snow Patrol. Eyes Open. A&M, 2006. Faixa 3. "If I lay here - If I just lay here - Would you lie with me...?"
** Paolo Nutini. These Streets. Atlantic, 2006. Faixa 2. "Grant my last request and just let me hold you, Don't shrug your shoulders - Lay down beside me. Sure I can accept that we're going nowhere, But one last time let's go there - Lay down beside me. I've found that I'm bound to wander down that long way road, And I realise all about your lies. But I'm no wiser than the fool that I was before. I just want you to closer, is that alright? Baby let's get closer tonight... Tell me how can, how can this be wrong?"
Agradeço pelas cartas. Atualmente nada me é mais permeável que o diálogo, e nada mais querido que meus leitores. Deste modo escrever a ti é escrever a todos os meus leitores e comentadores, e, antes do resto, caiba dizer que os aprecio muito, até os inexistentes, isto é, os contigentes, os vindouros e vice-versa.
Se, por ventura, o amigo leitor cansar do texto, pule até o fim do parágrafo - a você que gosta de promessas, prometo que ele será radicalmente diferente do anterior. Se, por acaso, não ocorrer o que prometo, talvez também seja uma bela oportunidade para você descobrir que não convém confiar em promessas - a esperança é a mãe da frustração, além de ser amante do medo.
Permita-me ainda outra colocação, na minha proposição pertinente, antes de responder mais diretamente às tuas palavras: Faço questão que as causas de minhas alegrias sejam pessoais (e quem não faz?), isto é, que tenham nomes, mesmo que não sejam eles que dêem significado ao nomeado, que tenham rostos, mesmo que sejam máscaras (já é o 'minhas' que diz: são alegrias referentes ao meu corpo e minha mente, como então não seriam pessoais, isto é, como não seriam relativos à minha pessoa? Só mesmo se eu não fosse uma pessoa, o que não está longe de ser o próprio caso). Estou quase em Spinoza, ao conceber como princípio da virtude exatamente o conhecimento. Gostaria que entendesse o que digo não como uma obrigação para identificar-se, nem mesmo como um pedido para tal - mas como um convite para uma maior intimidade (o que seria a raposa ao principezinho, se este não lhe tivesse distingüido da macieira? O que também nos mostra que a própria distinção pode tornar uma decepcionante mentira numa encantadora verdade, um egoístico incômodo na mais generosa conveniência - bem como a indistinção ou a indiferença podem fazer o inverso caminho). É uma temeridade julgar pela aparência, mas aparentemente não há outro o quê pelo qual julgar. E assim como então não faremos um julgamento (serás bem-vindo mesmo quando eu não souber que estás aqui - isto é, quando não distingüir tua face anônima do chão que piso - não serão os amantes do conhecimento também amantes do desconhecido?), é só uma questão de lamber as superfícies (nós cachorros não temos mãos, mas temos um gosto! grande sobremaneira que inclui até o reles); não basta tocar o que é querido, queremos torná-lo mais úmido (a vida é algo da própria umidade - em breve teremos uma postagem sobre economia, talvez isso fique mais claro). Fique claro, por fim, que entendo a pessoalidade como uma relação (por isso que disse relativos) - o que não é uma relação, hoje em dia? Poderia haver estoicismo maior?: os corpos são abstrações do movimento - eles próprios se constituem através do movimento, assim como se desconstituem, isto é, aquilo a que atribuímos uma identidade ou característica ganha tal atributo na medida em que se relaciona com outro aquilo, que então é a própria base da característica (efetivamente parece não haver conhecimento aquém das funções). Tudo é acontecimento, embora alguns sejam acontecimentos palpáveis. Não obstante, creio que, assim como os confusos conseguem ser pessoais com deus, todos nós poderemos ser pessoais com o desconhecido. O pessoal é exatamente aquilo que acontece entre dois (ou mais, obviamente - muito embora alguns resistam à idéia de que o amor possa ser plural, consideram, com isso, que ele vire qualquerismo, ou que, por contradição, acabe por negar a diferença - mas se por um lado não é exatamente o papel do amor ser a diferenciação ou aquilo que a engendra, tampouco ele deixa de a fazer - o que poderia ser mais fértil,e então mais forte, que a mistura?) corpos, sendo que assim acontece exatamente porque acontece entre eles - argumentar que não aconteceria desse modo se fosse entre outros corpos é exatamente o tipo de raciocínio que tento evitar, mas assim como essa falácia é talvez o único modo de ser entendido pelo vulgo (aquele que pouco sabe de lógica), e sendo esse entendimento vulgar algo que é caro a mim, disponho dela à guisa de exemplo. Bem entendido, aqui o vulgo é aquele que não sabe fazer uma afirmação sem fazer conjuntamente uma negação, e ele realmente acha que é somente com esse tipo de oposição que o conhecimento se torna diferenciador, e, portanto, válido. Oh, quantos vícios a paixão foi capaz de produzir, também nos mais altos filósofos, aqueles que tanto acreditavam que queriam estar no controle de suas paixões, aqueles que tanto acreditavam que queriam criticar o senso comum! Assim como a ação só (minha diferença aqui para com o fulgurante Spinoza é italizar os sós) nasce do conhecimento, também o amor - o que Spinoza critica no livre-arbítrio está para o vulgo (o iludido), assim como a crítica do amor também está. Explico: o vulgo se crê livre para agir porque desconhece as causas do seu afeto, e se crê amante porque desconhece o que é amor (o que também implica que não sabe efetuá-lo - o que por outro lado não implica ainda que ele não consiga efetuá-lo); então o desconhecimento gera o próprio equívoco na atribuição de causas, e assim como um amor é mais possível para aquele que sabe ser causa dele, há uma liberdade mais possível para aquele que conhece o intricado funcionamento do mundo, e, em conseqüência e principalmente, do próprio corpo e da mente. Aquele que não sabe só atingirá uma dessas perfeições por um golpe de sorte, generosidade divina, um bom encontro imprevisto. Todos os seres têm bons encontros, muito embora só tê-los não basta para (não sendo mesquinho com os conceitos) aumentar o amor ou a liberdade: é preciso forjar noções comuns. Daí que o conceito de filosofia se faça na amizade, e a sabedoria seja grandemente aliciada entre amigos (oh, nossos jardins!). O principal desafio dos nossos tempos é mostrar como a liberdade é o próprio caminho para o amor (e que então este amor também é o próprio caminho para a liberdade, na medida em que os seres, segundo a sua potência, se esforçam por fazer existir e por amar aquilo que os faz existir e os faz amar) - então a contemporaneidade vive uma crise da autoridade, e reivindica mais a si os controles (não é, meu amigo reacionário?) e a educação, aqui entendida como a própria violência (o que seria mais sintomático disso que a reclamação da impunidade? crê-se que a violência pode mostrar o lugar ideal do sujeito, quando ela, na mais aproximada verdade, mostra antes onde esse lugar não é - o velho princípio de fazer afirmações a partir de negações): quando aprenderemos a chegar em nossos destinos mais rápido?
Há pouca razão para ser contrário a algo - neste sentido sê-lo seria até mesmo uma pobreza na diversidade de perspectivas ou de razões. Não existem problemas, e isso não é uma negação. Isso é a afirmação pura (a fazemos ainda mais pura acrescentando: "embora eles possam existir" - aqui é um ponto onde pureza e impureza se misturam: o mais alto vem ao mais baixo, tornando-se impuro, mas com esse movimento, ele liberta a própria impureza para a pureza - não há até hoje exemplo mais claro e difundido do que o de Jesus). Não existem problemas porque tudo é como deveria na lei natural de deus. Agora, se os homens quiserem inventar utopias, que comecem inventando um lugar para elas, um caminho para elas. O que havia tentado colocar era também o que dizes: será que chegaremos a outro lugar pelo mesmo caminho? Não tenho vergonha de dizer que no momento estou mais visando minha própria sobrevivência (é o que geralmente vem primeiro, depois vêm os luxos, mas será que eles convém? Spinoza os dispensava) - e se todos me dizem, por onde quer que eu passe, que eles só reconhecem que cheguei a um lugar novo depois de muito ter pisado a batida terra, é o que farei... Talvez seja uma disputa entre os velhos, detentores do poder, e os novos, seus questionadores. E talvez para uma criança eu já seja um velho... Assim como eu não sou exatamente um anarquista, isto é, não penso que a lei natural de deus deva ser a mesma dos homens, muito embora possa agir assim com fins libertários; e sou mais um democrata, em termos de organização social, digo então que cada um pense por si mesmo. E confio sobretudo nas crianças, na sua capacidade de amar, de inclusive amar os velhos...
Se, no entanto, não precisar passar por onde já passaram, trilharei meu próprio caminho. É isso que quer dizer a minha barganha, os meus fracassos, os meus sucessos. Sei que sozinho não triunfarei, até mesmo porque não quero ser sozinho, então dependo de vocês, dependo do que têm feito de mim desde que nasci... Mesmo sem ceder, são as forças que nos fazem, centrífugas, centrípetas, não raro maiores que as outras forças, as nossas forças... E é este duplamente duplo trabalho que tenho abraçado: por um lado, fazer uma rede de superfícies (tecidos - não têm sido meus instrumentos?, e quanto mais orgânicos, melhor), por outro, tentar aprofundar as relações, e por todos, tentar propor o que me interessa, e ainda ser ouvido, e ainda sem deixar de ouvir. Não tem sido fácil, tampouco difícil.
Então eu diria que o amor é e não é um estereótipo. Há outras respostas, mas essas duas analisamos: para os apaixonados, o amor é um estereótipo. Para os que têm idéias adequadas, não, o amor é o flexível e o fértil. Talvez o eu só venha depois para os apaixonados (ao que parece, ninguém entendeu até hoje a diferença entre um apaixonado e um bobo).
Realmente estou cheio de proposições. São, às vezes, tolas (ou serão só bobas?). E então entendes para mim o que significa encontrar ouvidos, pequenos ouvidos para ouvir o que é pequeno? Você, leitor, é meu auscultador do invisível - também eu sou invisível, e também eu prefiro não ser, sem deixar de gostar de ser - você, leitor, é o espelho por onde atravesso nosso labirinto.
Durantes estas duas semanas, a proposta vai ser quase simplesmente fazer uma viagem (vai ser uma viagem com uma pequena introdução). O poste está dedicado a Sandro do Nascimento, outro incompreendido artista contemporâneo. O agradecimento é ao Daniel Dutra e à Talita Tibola, que hoje em dia são as pessoas que mais me dão o que pensar.
Assim como um artista sente no íntimo a irrevogável conveniência de mudar de estilo, também sente o vivente (até um simples silogismo aristotélico corrobora isso). Durante muito tempo me calar foi o modo que encontrei para poder estar contigo. Mas queres também minha voz intrusa e delicada. O riso que esgarça tua carne, escarnecida. As lágrimas que te louvam, demonstrando geometricamente a diferença entre tua presença e tua ausência, teu amor e tua indiferença. Não estás pronta, não é motivo pra te jogar fora. Talvez nunca estejas, ainda assim. É muito certo que te machucar seja o meu último recurso, mais último que morrer, esta crisálida, devir-borboleta, não sei dizer melhor 'que dizes. No seu limite e no meu limite é que nos encontramos. E se nossa relação real é superficial porque não sabemos nos comunicar, mostrar que nos amamos, para além dos estereotipos (os tipos estéreis, duros) - 'você não me entende', 'você me irrita', 'você não me dá atenção', quais mais temos? -, há algo de nossa relação profunda que não me permite ser sem ti. Agradeço então por existir em minhas fantasias, ser para mim mais do que o comunicável. A vida é um texto, e todo texto se presta a que, depois dele, a vida nunca mais seja a mesma. Sei que isso não acontece senão imperceptivelmente, e por isso nada me tem sido mais insosso que a distância dos corpos transformada em palavras. Não são essas as borboletas que queríamos. Ser ambíguo é meu jeito de ir além dos limites. Na verdade, não sei o teu. A impressão que tenho é constantemente essa, de que a gente não se conhece, senão pelos estereótipos. Algo acontece quando o fim é muito premente mas os meios não fluem. Eu me encho de defesas, começo a dizer, fazer o contrário do que penso mas nem por uma exata ironia. Deixemos os prolegômenos para enfim viajar: http://radamesm.wordpress.com/2007/10/20/sou-tropa-de-elite - comentário de um posto do Radamés Manosso, alguém que é mais do que um produtor de conteúdos educacionais para internet. Vamos conhecê-lo?
Convém àquele que quer (para mim querer é ato intransitivo, que, no máximo, poderia ser traduzido por querer tudo - mas concedo aos mais despreparados o seu objeto particular, sua fantasia), escolher bem as encruzilhadas onde venderá seu corpo - ou sua alma. Como se sabe, a sorte e o destino se dão em função dos caminhos e das escolhas. Precioso que a vontade saiba seduzir, do modo que lhe convier: que cante, que inebrie, que dance, que apazigue... O modo pelo qual a vontade conquistará os seus amantes não precisará condizer com mais de duas coisas: o seu destino e ela própria. Jorge Papapá canta inescrupulosamente o amor veraz, o amor de ninguém: o amor é de ninguém e é narcísico, só quer a si mesmo (não quer, portanto, o ódio). Somos o meio, nós, os tradutores. Traduzimos o amor em amor, mas creio que ele estava falando do desejo. É como Delari [deleuze+guattari] pretendendo nos dizer para perder o nome e o rosto e sermos impessoais. Mas quem ama pode ser tão pouco minucioso? E, para nós, contemporâneos, se o amor se livra das amarras é para cair nos fluxos fugazes do desejo. Mais uma vez, escolhi o caminho do meio - e nada poderia ser tão infrutífero. O ciúme nos torna radicais, e também a solidão. Mas não toda a solidão. Não para quem é generoso com a solidão. Mas eu não estou mais sozinho, escondi minha solidão nos outros. Finjo estar perto para poder levar mais longe. Descobri que mais do que dicordar, gosto de levar mais longe. Porque reconheço que você me atravessa de um jeito que então não posso ser inteiro. Procuro-te em pensamento e não acho algo que diga algo, miragens móveis, voláteis no deserto. O corpo arfava enquanto a mente prescrutava, e não posso ser eu simplesmente quando você está no meio. E você é precisamente aquilo que está no meu meio, aquilo que está estorvando o meu fim. Se você é a seta que me desmonta querendo outra coisa, é oportuno eu te erguer e jogar longe. Sei bem fazer isso: sem que te doa. Você é um pouco a seta e um pouco o alvo, mas depois o que quero está além de você. Atravessada na garganta, que engole seco ou sangue. E o silêncio é mais incompetente 'que eu. De Leve [http://dicamelim.blogspot.com] foi pro funk (ou melhor: estilo foda-se?) e fez sua obra-prima, na minha singela e superficial opinião: O que que nego quer? [http://media.trama.com.br/tramavirtual/mp3/m_38/193152.mp3http://www.youtube.com/watch?v=EK7Apnie-4E] E a pergunta que coloco é: até onde pode esse movimento levar? Qual a mais pura nata do "vulgar" da sexualização (se existe a sexualização é porque um dia nós, seres sexuais, nos dessexualizamos)? Quer dizer: alguns estão tentando criticar a bunda com a própria bunda - e quem, de sã consciência, vai hoje no brasil se opor às bundas? Somos feitos delas! O punk brasileiro hoje não é o funk? Lembro-lhes, amigos, que quem faz cultura é a arte. Ou a maldição do pop (acessibilização da obra ao gosto) é a moda que veio pra ficar? Questões prementes para nós, artistas contemporâneos (estou falando da arte no mundo hodierno, e não da arte pós-Duchamp, que era um ignorante genial, e que influenciou muitos 'artistas', digamos, para ser afirmativo, que errar uma vez é procurar, e errar outras vezes é continuar procurando - como se conseguiu em plena modernidade não ter uma visão histórica? ou não se entender que o conceito está na própria metáfora e é mais belo que assim esteja? ou que o relativismo, o subjetivismo só implica em qualquer coisa num sujeito destituído de vontade estética, mais conhecido como o nihilista? - eles mal sabem o que é arte, fizeram dela um paradoxo quase ininteligível), que lutamos pelo espaço para demonstrar nossa arte sempre através das mais eficazes (e, portanto, mais deturpadas) traduções. A sedução é tanta que não sabemos mais o que é sério e o que não é (João Brasil [http://fmjoaobrasil.blogspot.com] diz que faz suas músicas de maneira séria, e que só agrada os outros porque agrada a si mesmo - fico eu pensando: e eu, gosto desse papapapapaparára porque tem suíngue ou por que me faz rir?). O que é o aprimoramento do narcisismo (deixaram os blogues de ser, se é que um dia foram, de adolescentes meigos e carentes ou, simplesmente, os rapazes ganharam barba e as moças cortaram o cabelo propondo a sua produção cultural - música, literatura, intelectualidades, dando estilos coquetes - e às vezes subversivos - ao seu inocente desejo de ser amado?)? Se há já no eu a instância do outro (como Freud perspicazmente propunha), o que me agrada em mim mesmo não é talvez o outro que há em mim? Se a fantasia é inerente ao humano, nossa questão fundamental é a dialética do desejo? Sofreremos sempre de nos entregarmos demais ao outro ou não nos entregarmos de modo algum? Sadismo e masoquismo no templo da democracia. O trivial gera polêmica e o mau gosto nos redime. Nem mais eu sei se estou usando o caminho mais fácil pra chegar no lugar mais difícil (será que esse caminho leva lá?) ou se estou propondo o outro caminho (será que então é possível que ele realmente leve a algum lugar?). O que sei é que nunca suplicaria como Miguel Torga (incrível que pareça, a solidão é mais impossível que o amor).
Em 1979, RupertHolmes abria o seu álbum Partnersin Crime com a canção "Escape". Se você já foi esperto e clicou no link acima, você já ouviu esta música, acompanhada em imagens com o também popular jogo TheSims. Se você não foi esperto, é hora de ser, de um jeito ou de outro. Para quem não acompanha o inglês, há abaixo, a despeito do pleonasmo, uma tosca tradução (gosto de imaginar que Roland Barthes e Gilles Deleuze gostavam de traduções, me parece que combinam com suas filosofias; e elas não deixam de ser estranhas porque são feitas por quem, bem ou mal, sabe traduzir: isso implica que uma tradução nunca é feita para si, e é sempre uma corrupção tanto do público quanto da obra. Um efeito de literalidade é trair a linguagem e a língua. Traduzir é sempre um evento literário, e é escriturário se feito com estilo (- não é engraçado? Escolhemos nosso destino, mesmo sem saber qual é ele). Eu, pessoalmente, ou acho a tradução um mal necessário (Como não lembrar que ele é um bem para Spinoza, ou do amor fati de Nietzsche?), ou acho que não me convém. Nós, os tradutores, somos esses monstros insensíveis e histéricos. A nada somos fiéis, e isso é um jeito de bagunçar tudo. Nós, tradutores, traímos até a nós mesmos. Não há remédio: ter uma mente é traduzir, é, portanto, mentir. Só nos cabe refazer o apelo nietzscheano de mentir com elegância, e o apelo guattari-deleuzeano de preferir a coragem de trair à covardia e deselegância de trapacear):
Estava cansado da minha dama
Estivemos juntos muito tempo
Como uma gasta gravação
De um favorita canção
Então enquanto deitada dormia
Eu li na cama o jornal
E na seção de coluna pessoal
Li esta carta que havia:
"Se gostas de Piña Coladas
E ser pego na chuva,
Se não és dentro da yoga,
Se tens meio cérebro,
Se gostarias de fazer amor à meia-noite
Nas dunas do Cabo,
Então sou o amor que procuravas,
Escreva pra mim e escape"
Eu não pensei na minha dama
Sei que soa meio mau
Mas eu e minha velha dama
Caímos na mesma velha tediosa rotina
Então escrevi pro jornal
Tirei um anúncio pessoal
E embora fosse poeta de ninguém
Pensei que não estava metade ruim
"Sim, eu gosto de Piña Coladas
E ser pego na chuva.
Não sou de comida saudável,
Eu sou a fim de champagne.
Tenho que te encontrar amanhã ao meio-dia
E atravessar toda esta fita vermelha,
Num bar chamado O'Malley's
Onde planejaremos nosso escape."
Então esperei com altas esperanças
E ela entrou no lugar
Eu reconheci seu sorriso num instante
Eu conhecia a curva da sua face
Era minha própria amável dama
E ela disse: "Ah, é você."
Então rimos por um momento
E eu disse: "Eu nunca soube
Que gostavas de Piña Coladas,
Ser pega na chuva.
E a sensação do oceano,
E o gosto de champagne.
Se gostarias de fazer amor à meia-noite
Nas dunas do Cabo,
És a dama que procurei por,
Venha comigo e escape"
Pois os vivos não foram tão vivos quanto o artista, e o que aconteceu foi mais ou menos o seguinte: "Um casal bósnio está se divorciando, depois de descobrir que um traía o outro em chats na Internet. Detalhe: eles começaram o relacionamento virtual usando pseudônimos, e só descobriram a verdade quando combinaram um encontro real com os "novos parceiros".
Sana Klaric, 27 anos, e seu marido Adnan, 32, usavam os nomes de "Sweetie" e "Prince ofJoy" em salas de bate-papo. Conheceram-se e iniciaram uma relação, confidenciando-se mutuamente os problemas que tinham em seu casamento. Os dois, de acordo com reportagem publicada no site Metro.co.uk, estavam convencidos de terem finalmente encontrado sua alma gêmea.
Então, resolveram marcar um encontro real para se conhecerem e descobriram a verdade. Agora, o par está em processo de divórcio, e um acusa o outro de ter sido infiel.
"De repente, eu estava apaixonada, era maravilhoso, parecia que ambos estávamos amarrados no mesmo tipo de casamento infeliz {o que ela parece nos dizer é que as aparências atraem como a verdade não o faz, pensamento estranho, mas talvez veraz: por que a virtualidade nos toca mais que a atualidade? É uma estética do devir?}", contou Sana. "Depois, me senti tão traída", disse {ela se referia à trapaça, o tão se diz: pelo marido pelo amante, e a pior de todas: a própria...}. Adnan, continua sem poder acreditar no que aconteceu. "É difícil pensar que Sweetie, que escreveu coisas tão maravilhosas para mim, é na verdade a mesma mulher com quem me casei e que, por anos, não foi capaz de me dizer uma única palavra agradável". Você acha a notícia fácil, essa aqui eu tirei do sítio do Terra, na verdade a notícia é velha, como, enfim, é comum.
É normal ter problemas conjugais. É normal conversar com alguém sobre isso. Creio que é normal que esse alguém esteja na internete. Creio até mesmo que é normal acabar conversando com um seu conhecido, sem conhecer que é ele. É improvável, por isso acontece pouco, mas não é impossível, e por isso acontece. Tudo bem, o improvável nos fascina, vá lá. Mas não vejo muito o que fazer a não ser ficar estupefacto. O que quero comentar é o seguinte: há pessoas que não suportam o amor e ainda querem... casar! Se algo tivesse a ser pedido explicação para psicólogos, certamente não seria por que uma pessoa se apaixona, mas por que acredita na sua própria paixão.
O anormal não é encontrar em alguém o 'objeto' digno da nossa paixão. Mesmo porque não é isso que acontece, o que acontece é que nos tornamos dignos de estarmos apaixonados, e isso acontece com a primeira pessoa que aparece na frente. Certamente muitos vão discordar de mim, mas o mecanismo que eles têm em mente se chama resistência à feiúra, à burrice, à falta de tato, qual seja o caso.
Prefiro a versão de 1979, que é piegas mas não é tola ou rançosa, de um artista que teve sensibilidade suficiente para mudar o próprio nome da música (pequena grande tradução às massas e à sua própria fama), simplesmente porque as pessoas não tinham a sensibilidade para lembrar que aquela música que lhes agradara tanto, aquela, a da Piña Colada, na verdade se chamava Escape. Um nome tão propício! Esse é o nosso mundo...
Ao ser consultado sobre a própria música, Rupert disse (e eu traduzi e o lugar de onde, literalmente, tirei é: http://www.songfacts.com/detail.php?id=2896 ) : "Gosto de pensar que eles olharam um ao outro com vergonha e realizaram que antes de qualquer um correr para encontrar alguma fantasia que provavelmente não existe na realidade, eles podem reinvestigar seu próprio relacionamento porque há muito que eles ainda não exploraram. Penso que é um final feliz com nota de pé. Ambos estão um pouco chocados {com a galinhagem, se me permitem acrescentar}, mas nenhum pode apontar o dedo muito forte ao outro porque ambos estão querendo tentar um novo relacionamento e, felizmente, sua possível indiscrição os levou um ao outro de novo."
No caso presente, claro que não se trata de um ingênuo: "ã, eles deviam tentar de novo." O que eles deviam eles ficaram devendo, e ninguém deve nada a alguém do qual na verdade é credor, embora, claro, nada o impeça e mesmo se aconselhe a perdoar as dívidas, especialmente quando um é credor do vice-versa. Mas, por incrível que pareça, ninguém sabe melhor do que eles como o seu relacionamento funciona (e, principalmente, como não funciona), o que mostra também como desconhecemos nós mesmos, os outros, aquilo que amamos e aquilo que odiamos (e neste sentido são nossas próprias concepções apoucadas que atravancam nosso mais saudável devir). Mas na verdade tudo isso é não só uma crítica, mas um fato comprobatório (para aqueles que ainda querem a ciência, e a ciência nesses moldes) contra os que torcem o nariz ao relativismo. Há, volta e meia, uma espécie de sentimentos dentro de nós que nos dispõe ou indispõe com o que está à nossa volta, e, ser alegre é tão possível quanto ser triste. Aqueles que não gostarem dessa frase certamente argumentarão contra ela com um sentimento indisposto.
Mas realmente o mais importante de tudo é que a lógica não funciona quando a ética não funciona...
E se por um lado nada faz mais sentido do que abandonar a literatura, a arte está sempre transformando a existência em vida...
Últimos diálogos, com Delari:
O conto de Rupert e a novela de Zenica (essa da Bósnia): o que poderia ser mais duplo que este casal descasado, duplicado na virtualidade, odiados ou insossos amantes, rebatendo a mentiras (a trapaça, porque as traições são declaradas) com mentiras (a paixão)? E enfim nada aconteceu, mas tudo mudou. O maleável se maleou tanto que explodiu (e vai se a outro duro?). Viu além do rosto, olhou além do olhos. A esturricante claridade aqui é que os cega: nenhum segredinho sujo (eu amo outro - eu não te amo) a esconder e estamos livres, entendidos: "amor desfeito para ser capaz de amar", num caso ou no outro. Pouco basta envolver-se, mais é desenvolver-se. Desfazer-se do eu, da vaidade imperiosa, da identidade (não ter mais um nome - ter outro nome, não ter mais uma face: alguns só conseguem fazer isso, tornar-se imperceptível virtualmente; outros fazem isso exatamente para esconder segredinhos...): e não se trata de não ser notado como na multidão urbana, porque ela não ama. Em suma é desistir de ser amado sem deixar de amar. Libertar-se do passado e do futuro (o que não significa livrar-se, exatamente porque estamos falando de amor e não de sexo), afinal "Un instante cualquiera es más profundo Y diverso que el mar" (Jorge Luis Borges).
Dois jeitos de não fazer do amor algo desonesto. Pode haver mais, mas trapacear não é um deles, nada é amoroso no trapacear. O primeiro é ser fiel, fidelidade ao ser amado; e o segundo é trair, fidelidade ao amar.
Já eu, não te pergunto se posso ser teu clandestino, simplesmente me alojo ali no teu peito, com teu estranho, ambíguo consentimento...
Posso eu brincar: não levo as paixões a sério, vivo a desafiá-las.
Cabe agora um pouco despir-se das fantasias... Despir-se das fantasias, meus vindouros!
O real e o que couber nele, viver de corpos e ações.
Em resumo, o que consigo afirmar é solamente a vida. Nem um amor pérfido a mais. Nem um pecado inconstante. O que o eu afirma é só essa linha que ele faz, com a matéria da carne, entranhas revoltosas e incomodadas, essa linha que se desfaz nos confins do tempo, nas imemoriosas sombras das próprias carnes que se devoram precariamente, em busca de uma vida um pouquinho mais extasiante. Nem as saborosas lágrimas. Nem o pavor do vento. É a vida que me leva, despeito de eu sempre tentar seduzi-la. Batalha ingrata da minha melhor amante: eu tento afirmar mais do que existe, quero fazer acontecer, e ela me replica dando somente a si mesma, porque nada mais há para dar. O eu, presunçoso, acha pouco aquela que se dá inteira, e vive a sonhar, com mais do que tudo... Meu espírito tem grandes olhos sôfregos que gritam 'mais!' enquanto inventam a realidade. Vida! Eu te mereço mais quando estás triste do que tu me mereces quando eu estou alegre, tu mereces mais do que eu tenho pra lhe dar. Até a tristeza...! Vou tentar ser mais agradável com aqueles que vestem teu precioso manto. Toda a vontade excedente, tudo aquilo que quero para além do imediatamente possível, vêm para mim em fulgurantes sonhos. Mas eu sou o devir, e eu convido a vida para dançar.
Visto o saldo, cabe agora uma nova temática, um novo modo. Embora melhor seria se visse sempre o que consigo afirmar, o mais premente agora é circular de outro modo, mais inteligência, mais beleza, mais humor, mais concisão, mais tato, contato. As coisas vão mudando assim, aos saltos e entrelaçadas, só estou fazendo a enunciação disso. O bobo vai tomando todas as partes de mim, e as grandes demandas do eu vão esmorecendo, enquanto nascem as conquistas das demandas dos outros, que passarão a ser subjugadas democraticamente, e postas sob nova perspectiva, nova aparência, até mesmo novo conteúdo. Não é preciso que um eu passe através de um grande outro para então se tornar um grande eu? A ética será tanto maior quanto mais noções comuns houverem.